Escritos

13/08/2015

O menino-girafa

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A memória é um ímã que coloca em contato passado e presente. Assim que se mudaram para a África, meus pais resolveram que cada filho adotaria um animal característico da região. Não animais reais, claro, mas miniaturas, pequenas esculturas, fotografias artísticas ou qualquer outra representação bonita. Acho que eles queriam que, de alguma forma, a nossa infância nunca escapasse da nossa história e fosse sempre lembrada de um jeito criativo: uma fórmula mágica para matar a saudade e continuar vivendo. Desde então, minhas três irmãs e eu, no meio das incontáveis mudanças de ruas, casas, bairros, cidades, países e continentes, sempre nos mantivemos vizinhos às nossas raízes.

Meus pais acertaram na mosca!

Sarah ficou com os elefantes e até hoje preserva em si uma doçura proporcional à grandeza deles, além de uma memória invejável. Maïra escolheu os hipopótamos e, sem dúvida, é a que tem os hábitos alimentares mais saudáveis da família. Se ela pudesse, só comeria folhas. Inclusive é capaz de ficar submersa por horas e horas e aparecer do nada para mostrar toda sua força. Nara abraçou os camelos, e a sua corcova imaginária funciona como um reservatório para guardar toda a sua bondade. A mim me foi dada a girafa, e até hoje sinto que trafego pelo mundo com a cabeça grudada nas nuvens e as patas fincadas no chão. Sempre achei que girafas fossem poetas gigantes que observam o mundo, manchadas pela tinta de suas canetas.

Em tom de brincadeira, a cada nova sarda que aparece no meu corpo digo que estou me transformando em algum super-herói africano: o menino-girafa, talvez. Meu superpoder? Transformar girafa em infância. Acredito que com as minhas irmãs aconteça o mesmo fenômeno. No meu caso, toda vez que vejo algo relacionado às girafas, minha memória me leva automaticamente para a segunda-feira, 22 de maio de 1989, no escritório do meu pai em N’Djamena, Chade. Estou sentado na cadeira mais alta daquela sala, desenhando a minha primeira girafa. Meus pés não alcançam o chão. Balanço as pernas no vazio debaixo da mesa, como se estivesse nadando ou tentando não me afogar. Imagino um rio agitado cheio de jacarés, peixes gigantes e monstros jamais vistos engolindo minha arte… Grito! Meu pai me abraça. Estou em paz novamente. Podemos voltar para casa?

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06/08/2015

Minha timidez me obriga a tirar os óculos

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Não sei quando começou esse negócio de não enxergar direito. Fato é que até hoje tenho uma enorme dificuldade em querer ver as coisas com nitidez. Geralmente, o que é muito perfeito me incomoda um pouco. Por isso, mesmo depois de o oftalmologista diagnosticar um grau elevado de miopia, eu sempre usei meus óculos com moderação. Meus motivos? Acho que a timidez é um deles.

Minha primeira lembrança desse isolamento visual data da infância. Eu e a minha querida miopia tentávamos brincar de bolinha de gude com os meninos da vizinhança. A regra era clara (e eu não a enxergava tão bem assim): o jogo consiste em fazer três covinhas em um percurso de ida e volta, no qual o jogador tem que colocar o seu berlinde dentro de cada cova. O chão de terra escura e a luz de final de tarde dificultavam o meu jogo. Eu não sabia onde estava a cova principal, muito menos onde se encontravam os berlindes dos meus adversários, e, envergonhado, queria me esconder nessas covinhas. Eu era o meu maior adversário.

Depois, na adolescência, a minha miopia encontrou um amigo: o astigmatismo. Agora, além da dificuldade de enxergar de longe, também tenho a vista embaçada. Lembro-me do primeiro show com a Brisa, a minha banda de indie rock alternativo. Por medo de encarar a plateia, eu não colocava os meus óculos e abaixava a cabeça. Até hoje não sei se tinha três, 20 ou 100 pessoas naquele pequeno galpão. Minha única obrigação era olhar para as teclas brancas e pretas, pretas e brancas, brancas, brancas, pretas, brancas, pretas… Pânico! Sorte a minha que o meu instrumento era o teclado (santificado seja o seu inventor! Aposto que ele era tímido também e fez da sua invenção uma forma de não enfrentar o mundo à sua frente).

Hoje, já adulto, ainda não me acostumei a ver o mundo certinho. Ainda não me sinto totalmente confortável quando estou de óculos. Sei lá, acho lindo observar as pessoas fora de foco, a paisagem se tornar um imenso borrão multicolor. Isso me tranquiliza um pouco. Algumas situações inusitadas inclusive me ajudaram a ter inspiração. Já saltei na estação errada do metrô. Já abracei desconhecidos na rua achando que eram meus melhores amigos de infância. Já pedi sorvete de creme por não conseguir ler a plaquinha do sabor exótico logo ao lado. Tudo isso me impulsiona a criar. No meu caso, só quero ter visão perfeita em três situações: para enxergar o número do ônibus, para analisar detalhadamente o extrato da conta-corrente e para contemplar os olhos da amada.

Ah, tenho um agravante: sou míope, tenho astigmatismo e ainda ando de fone e música alta. Portanto, se você passar por mim e eu não vir, e se você chamar meu nome e eu não ouvir, pense naquele velho bordão do término dos namoros: o problema sou eu, não você.

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28/07/2015

Sobre o medo de não ter mais inspiração

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A página está em branco, mas já dá para ler desespero em letras garrafais. Acredito que todo mundo já tenha sentido aquele pânico de não ter mais inspiração. Seja antes de começar a escrever um romance. Seja num simples cartão de natal para a família. Seja para escrever um poema para aquele amor de infância. A primeira frase sempre parece estranha. O primeiro verso sempre soa bobo. O primeiro traço nunca fica exatamente como imaginávamos. O medo de não saber o que vai nascer naquele espaço vazio é a angústia de tanta gente desde que o mundo é mundo, desde que arte é arte.

Aprendi em uma das aulas da faculdade que a Ideia é como gato, não como cachorro. Ela vem quando ela quer, não quando você chama. Pois é, não adianta pressionar a mente. Você não encontra uma ideia pronta na sua agenda telefônica, na sua gaveta bagunçada ou dentro de um baú envelhecido na casa da sua avó. Não dá para convidá-la para o boteco com dia e hora marcada. Ela também não tem endereço fixo para você ir buscá-la desesperadamente em um domingo à noite. Mesmo com chuva! Ah, e nem pense em chamá-la para tomar um chope numa quarta-feira para assistir ao jogo do seu time. A ideia, às vezes, torce pelo adversário! Ela é independente. Ela aparece quando bem entender. E, se ela entender que não deve aparecer, esqueça-a: ela não aparecerá.

Mas então o que fazer diante dessa angústia?

Bom… Desde o meu primeiro guardanapo, eu sempre penso que não terá o próximo. Que aquele será o último. E nunca é! Quando fico sem ideia, eu escrevo e desenho e assisto a um documentário qualquer sobre a comunicação dos golfinhos. E, se a ideia ainda não aparece, eu escrevo e desenho e ouço a discografia do Chuck Berry. E, se mesmo assim ela não vem, eu escrevo e desenho e falo com meu pai, que mora longe. E, se depois de tudo isso ela ainda prefere ficar escondida, eu escrevo e desenho e leio cartas antigas (ah, como era bom aquele tempo em que recebíamos cartas!). Seja insistente. Crie condições para facilitar o caminho da ideia. Deixe seu cérebro sempre treinado, pronto para o raciocínio rápido – aquele que vai permitir que você abra com agilidade as gavetas invisíveis que guardam todo o seu mundo de referências e associações.

Uma hora a ideia chega, é inevitável. Esteja pronto porque, quando ela aparece, ela não quer saber seu nome, seu endereço, seu estado civil, ela não está nem aí se você está almoçando, dormindo ou sentado numa praça sem caderno para eternizá-la. Ela simplesmente invade o seu corpo sem pedir licença e se faz sua.

A vida é uma imensa página em branco.

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22/07/2015

Escrevo para você que me ensinou a escrever

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Você me ensinou a escrever. E a ler. E eu escrevia, em letras minúsculas. E eu lia, em voz baixa. Sempre fui tímido, você sabe. Eu só gostava de ouvir, de ouvir, de ouvir. Acho que repetia duas ou três palavras apenas, não mais. Talvez “bonjour, maman”, talvez “nez”, talvez “bouche”, talvez “rouge”. Não sei.

Só sei que, ali, em casa, era a melhor sala de aula do mundo. Era impossível chegar atrasado, afinal, eu dormia a dois quartos da mesa de estudo. Eu nunca era mandado para a sala do diretor por um motivo simples: não havia diretor. Não havia a necessidade de usar uniforme, mas eu andava sempre impecável, o primeiro botão da camisa arrebentado, os cadarços ainda por fazer e o cabelo, bagunçado como se tivesse sido penteado por mãozinhas nervosas (até hoje ele continua assim, descabelado). Mesmo assim, você dizia que eu era o menino mais lindo da sala. E tinha razão. Não havia concorrência. Não havia também os meus aliados para jogar bolinhas de papel molhado na nuca das inimigas da fileira da frente. Aliás, nem havia a menina mais bonita da turma. Minto. Você era a menina mais bonita da turma.

Eu lembro que eu acordava ainda com sono, tomava um copão de leite e sentava ao seu lado. Você, como mãe e não como professora, naquele momento, pedia gentilmente para eu me levantar e escovar os dentes antes do início da aula. E era exatamente o que eu fazia. E voltava, et voilá, a aula podia, enfim, começar. Você dizia coisas que agora eu não vou conseguir lembrar. Acho que era o princípio das coisas: a letra A, o número 0 – que eu achava tão parecido com a barriga do vovô. Eu, mesmo sem saber contar, só contava as horas para o recreio. Não que as aulas fossem infernais, mas naquela idade cada segundo livre tem um quê de paraíso.

No intervalo, eu corria para a rua vazia e imitava aviões: meus braços, pequenos, eram as asas, pequenas. Talvez um ultraleve. Mas ele ia longe, longe, longe, juro! Eu podia tocar o céu e sentir a fofura das nuvens branquinhas, branquinhas, branquinhas. O motor era som que saía da minha boca que ainda aprendia as primeiras letras, os primeiros números. Eu, agora um pássaro metálico, espantava sem medo os lagartos que bronzeavam nas pedras do jardim. Mas eles não se intimidavam. E era eu quem acabava fugindo deles, correndo, voando, com as mesmas pequenas asas, com o mesmo motorzinho bucal. Graças a Deus, Deus não dá asa a lagartos. E eu conseguia escapar e pousar, são e salvo, de novo na minha pequena cadeira com duas almofadas: uma laranja com estampas de máscaras africanas e a outra de uma cor que eu não lembro, talvez invisível. Sim, quando se é criança, o invisível é uma cor tão bonita. Talvez ela tivesse a cor e o formato da minha imaginação. Mas era confortável, não tão confortável quando seu colo, mãe. Mas era confortável.

Hoje, eu aprendi a ler e a escrever. Sou um homem que pode exigir alguma liberdade, mesmo ilusória. E essa liberdade que tanto procuro ainda precisa daquelas pequenas asas para voar, voar, voar para longe e continuar do seu lado, naquela mesma sala de aula, sentado naquela mesma pequena cadeira confortável com duas almofadas, correndo naquele mesmo imenso jardim, espantando aqueles mesmos imensos lagartos, imitando aqueles mesmos pequeninos aviões, querendo alcançar aquele mesmo céu e tocar naquelas nuvens idênticas, fofas, para escrever com aquelas mesmas pequenas mãos: talvez “bonjour, maman”, talvez “nez”, talvez “bouche”, talvez “rouge”, mas, principalmente, obrigado.

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16/07/2015

O menino que quebrou o silêncio

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Sempre achei que a minha vida fosse uma releitura da música Paratodos, do Chico Buarque. Com algumas variações naturais, é claro. Afinal, cada um de nós carrega a própria voz e a partir dela recita, como bem entender, os fonemas de uma nova história.
Meu pai passou a infância em Coira, uma comuna da Suíça, onde a língua oficial é o alemão. Uma língua que dizem ser muito eficaz para adestrar os cães. Que maldade! Com o tempo, aprendi a ouvir com prazer a sua estrutura silábica, que até então parecia uma sequência sem fim de xingamentos. E pasmem: até tenho conseguido latir algumas doçuras germânicas.
Minha mãe veio ao mundo abençoada pelos braços abertos do Cristo Redentor. Carioca da gema, como dizem. No Rio de Janeiro, mais do que o português, fala-se o carioquês. Um dialeto onde se puxa o s, se estica o r e se desdobra em uma variante invejável de expressões que formam pequenos chiados. Uma espécie de rádio mal sintonizada, sempre em busca de uma programação carismática.
Meus pais se conheceram na faculdade, em Lausana – uma outra cidade na Suíça, que fica na parte francófona do país. Lá, obviamente, se fala francês. Mas não o francês-francês. Quem reina soberano é o francês com o sotaque helvético. Um francês um pouco mais lento, talvez preguiçoso. E foi ali, naquele idioma, que eles encontraram a paz para se comunicar, se aproximar, se apaixonar e enfrentar o destino. Ele, em francês com aquela sonoridade quase autoritária (um latido?). Ela, em francês com sotaque tropical, daqueles que só se encontram em dias de verão.
Casados, eles se mudaram para a África. Mais precisamente para o Chade, um país com duas línguas oficiais: o árabe e o francês. Mas não o francês-francês. Ali, se ouvia o francês extremamente musical – característico das antigas colônias. Isso sem mencionar os incontáveis dialetos entre etnias, tribos e aldeias da região. Eu, que ainda não tinha saído da barriga da minha mãe, já estava tentando entender como iria me entender no mundo. Minhas irmãs devem ter sofrido o mesmo dilema.
Na dúvida entre ladrar ou chiar, me encontrei no silêncio. Nasci tímido. Não me vem à memória ter chorado nas mãos da parteira. Não me lembro de ter causado grandes escândalos típicos de um recém-nascido. O que me recordo é que eu passava horas dormindo, tentando entender a linguagem dos meus sonhos. Meu pai diz que eu fui o primeiro bebê branco a ver a luz naquele hospital durante a guerra civil que tomou conta do país e nos obrigou a fazer as malas novamente. Destino: Cabo Verde. A língua oficial: crioulo. Moramos cinco anos naquelas ilhas. Até a separação dos meus pais. Minha mãe voltou para a sua cidade natal. Meu pai fez o mesmo. Eu segui os passos maternos, e o mundo passou a ser a minha imensa sala de aula.
Que língua afinal eu tinha que adotar para a vida? Eu pertenço a qual idioma? Eu parecia não falar. Vivia enfiado no meu mundo. Passava o dia inteiro abrindo gavetas internas para encontrar alguma frase, algum assunto, algum papo bacana para soltar em alguma conversa, em alguma mesa... Em vão! Algumas palavras simplesmente não querem sair. Parecem morar em nós, amarradas, acorrentadas, trancafiadas.
Cheguei ao Brasil ainda sem saber como alinhar minha traqueia, sem saber como calibrar minhas cordas vocais, sem saber a envergadura correta da boca, sem saber o formato ideal dos lábios, sem saber como dizer ao meu cérebro que agora eu preciso apenas pronunciar um simples “obrigado” em bom e velho português. A língua sempre foi um obstáculo na minha casa. Eu tenho certeza de que muitas desavenças nasceram desse sentimento de dialogar em uma língua em que não se tem o pleno domínio das emoções, da gramática, das ironias, do humor, dos sentidos.
Passei muito tempo tentando descobrir qual era afinal a palavra que me cabia. A poesia, muitas vezes fragilizada, foi a força que encontrei para quebrar o meu silêncio. Cada verso que pus no mundo foi para reler a minha infância. Cada rima que coloquei no papel foi para amparar a saudade. Minha poesia é a soma de tudo o que vivi. Neutra e bonita feito a Suíça. Criativa e carismática feito o Brasil. Leve e satírica feito a França. Melancólica e esperançosa feito a África. Minha poesia é minha língua. Minha língua é meu caminho. Já diz a canção: “Vou na estrada há muitos anos, sou um artista brasileiro”.
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