Escritos

22/10/2015

Sem ti falta

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Já senti falta do meu choro quando nasci e do seu colo agora que cresci. Da ardência nos olhos por causa do cloro da piscina na casa vizinha. De quando eu brincava sozinho de astronauta, ou caubói, ou soldado de um exército solitário. Eu me achava as Forças Amadas. Acreditava que salvaria o mundo. Bobo! E, quando acordava cheio de energia, eu juntava as minhas três profissões imaginárias: pisava na lua, subia no meu cavalo-sideral e atirava palavras bonitas nos cometas mais temerosos!

Já senti falta da minha cara sem sarda no espelho. Do som do aparelho do dentista maltratando a minha cárie. Do aparelho de som que o meu pai usava para colocar as mornas, coladeiras, funanás, e todos os ritmos tradicionais de Cabo Verde. Cesaria Évora reinava, mas Ildo Lobo era o ídolo do meu pai. Ah, o som da minha infância! Sinto falta de apertar play na memória e ouvir de volta todo o setlist em loop. (Que frase moderna!)

Já senti falta das férias na Suíça ─ cheias de Alpes e baixos. Já senti falta de ficar na rua até as onze da noite. De jogar bola de gude, de escutar Johnny B. Goode, de usar tênis Kichute, de beliscar alguns quitutes. Senti falta daquela pipoca doce no plástico rosa. Da vitamina de abacate depois de uma longa caminhada. Da jujuba do camelô na esquina da Princesa Isabel com a Gustavo Sampaio. De contar todos os paralelepípedos de Copacabana quando saía para caminhar com o meu avô. Só fui reencontrá-los anos mais tarde na música do Chico. Vai passar, eu sei, meu neto. Vai passar nessa avenida um samba popular… Já senti falta da revistinha da turma da Mônica que ele trazia todos os dias após o trabalho.

– Olha, Pedrinho, trouxe este gibi!

– Pô, vô, esse eu já li!

Cascão, Cebolinha e Magali estão grandinhos, né? A Mônica continua dentuça. O Cascão, sujinho. A Magali tem o estômago maior que uma melancia. E o Cebolinha deve estar mais englaçado do que nunca!

Quero rir de novo.

Já senti falta do meu primeiro cão, do seu primeiro não, do meu nome escrito no caderno da quinta série e de uma série de outras coisas… Senti falta da primeira vez que calcei um tênis e da última vez que vi sua foto aparecer on-line no skype.

Já senti falta do que fazer. O que fazer?

Já senti falta do futebol. De driblar minha infância. Da voz do técnico aos brados − vocês acham que eu tenho cara de palhaço! ─ a cada derrota do meu time. E não eram poucas! Mas o time era bom. Já senti falta de isolar a bola no prédio vizinho ao colégio e ver o Lucien escalar feito ninja as grades que separam a glória e o fracasso. Ele enfrentava sozinho uma família de gansos, pulava num lago que parecia profundo e catava nossa bola como quem garimpa a última pepita de ouro da face da Terra. Depois, escalava de volta e retornava sem esforço para a linha do gol. Ele era nosso herói. Pelo menos enquanto durava o intervalo.

Já senti falta das aulas de matemática. Mentira! Até hoje divido meu tempo lendo poesia e desenhando em guardanapos para multiplicar a distância e nunca mais precisar me somar aos seus números. Já senti falta da palavra saudade quando nem sequer sonhava em morar no Brasil. Verdade!


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19/10/2015

E agora, Antônio?

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Quando saio de casa, sempre levo um livro comigo, ou um poema, ou um texto curto. Algo que me faça ver palavras. Sim, ver palavras. Nem sempre tenho necessidade de ler, o que preciso é saber que ali – a um palmo de distância – existe uma junção de sílabas, uma lógica de letrinhas prontas para serem lidas.

O grande dilema é saber o que levar. Confesso que não sou muito criterioso. Parto do princípio de que, se o livro está na minha estante, é porque eu o comprei. Então, de alguma forma, ele me interessou: seja pela capa, seja pelo autor, seja por um poema específico, seja pelo impulso que a sociedade de consumo provoca. Ah, minhas fraquezas!

Não tenho apego ─ minha escolha é aleatória: quem estiver ao alcance das minhas mãos vem. E, se não quiser vir, eu puxo pelas orelhas mesmo. Sem dó. Se bem que esses dias o Manuel me negou. Não dei Bandeira. Estiquei os dedos um pouco mais e Carlos estava lá. Sorte que Drummond tem sido fiel companheiro e aceita com timidez eufórica os meus passeios. Saímos de Itabira e fomos a pé até o Arpoador em uma fração de poemas. Paramos em uma pequena lanchonete para reclamar dos preços abusivos, reabastecer o fôlego e matar a fome. Eu, carioca, pedi um sanduíche de queijo minas. Ele, mineirin, quis um carioquinha, o famoso café com um tiquinho de água quente. Um café mais ralo. Invertemos os papéis. (Os guardanapos?)

Poucas palavras foram ditas; outras tantas foram editadas pelo silêncio. Quando se é tímido, as frases ficam zanzando pela cordas vocais do caminho da fala, se arrastam pelo meio-fio e se perdem no céu da boca de um bueiro que a prefeitura se esqueceu de tapar. Ah, as fraquezas da cidade!

Depois de um breve silêncio
inter-
-calado
com uma longa pausa,
Ele me declamou:

E agora, Antônio? A criatividade sumiu? O guardanapo acabou? Não tem mais trocadilho? E agora, Antônio? Não quer mais beber? A cerveja está mais cara? A barriga não diminuiu? Por que não corre mais? E agora, Antônio? Quem o compartilha? Quem comenta no seu mural? Quem o curte? E agora, Antônio? O que você faz é poesia? É desenho? E agora, Antônio?

Já que eu não me chamo Raimundo, não sou uma rima, muito menos tenho uma solução, me escondi atrás das suas sete faces e voltei para casa como quem volta para a realidade. Fechei o livro. Torci para ninguém mais roubar seus óculos.

Pelas lentes da sua poesia, vejo a grandeza do seu mundo, mundo vasto mundo

e sem beber conhaque − ainda prefiro chope ─ me comovo com seus versos.

Eu não sou o diabo.

A nossa conversa ficou no meio do caminho.

Tinha um Pedro?

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08/10/2015

Cílios ou lágrimas?

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Este é só um pequeno texto para tentar explicar a grandeza dos cílios, das lágrimas.

Nos meus poemas, às vezes você encontra um rabisco. Geralmente é uma pessoa com olhos grandes e tristonhos e longos cílios líricos que tentam alcançar as palavras bem ali do lado, dividindo o mesmo pedaço de guardanapo, o mesmo espaço de vida. Um personagem que não se parece com ninguém justamente para representar todo mundo.

Procurei algumas possíveis explicações. (Vale lembrar que toda possível explicação está passível de não explicar nada.)

No começo, esses olhos ficavam abertos, contemplando os movimentos de quem se dedicasse a entender a poesia que os acompanhava. Eles eram um pequeno espelho. Aliás, dois pequenos espelhos. Inconscientemente, fui fechando a janela da alma do Antônio. Talvez para ele viver mais o sonho, talvez para ele ver menos a realidade. Talvez simplesmente para tentar entender o mundo que acontece dentro de cada um de nós. Talvez essa seja uma forma poética (menos dolorida?) que eu encontrei para admitir que a minha timidez ainda me bloqueia, que a vida ainda me assusta. Talvez seja uma maneira idealizada de eu não querer revelar se há alegria ou tristeza na minha expressão. Um véu poético. Se você está triste, seus olhos refletem uma cachoeira de lágrimas. Se você está feliz, seus olhos projetam cílios infinitos.

Por um tempo achei que meu personagem fosse apenas esse par de olhos fechados. Sem tronco, sem braços, sem mãos, sem pernas, sem pés, sem corpo ou coração. Minto. Sempre houve coração. Um coração vazado: um abismo no peito. Mas aos poucos a necessidade acabou desenhando mais alto. Rabisquei um tronco para ele poder se curvar diante do amor com mais facilidade; e inventei braços e mãos para ele agarrar o mundo com mais coragem; e implantei pernas e pés para ele também poder fugir quando se sentisse acuado. E, para ele não morrer de frio ou não viver da frieza da sua amada, eu o vesti com um casaco listrado. Inútil: o buraco no peito continua.

Antônio nasceu do inconsciente. A consciência nessas horas é um pouco covarde. Ela nunca admite totalmente o que sente. Sorte nossa que o inconsciente preserva uma valentia ousada. Eu perdoo a consciência. É ela quem dá a cara a tapa. É ela quem é julgada. O inconsciente fica ali na dele. Se a situação aperta, ele pede uma explicação para o Freud e está tudo bem.

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10/09/2015

Brincando com o infinito

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A poesia tem seu lado subjetivo. Cada amante das palavras interpreta a mensagem de acordo com as suas vivências e a sua bagagem cultural. Por isso, nem sempre é fácil entender um verso. Agora imagina quando esse mesmo verso é desenhado com letras que mais parecem um labirinto de sentimentos? A dificuldade só aumenta, não é mesmo? Admito que nem sempre é simples decodificar o que escrevo nos meus guardanapos e concordo com a maioria dos comentários repletos de não entendi + o que está escrito? + viva a legenda! toda vez que posto uma nova arte com essas letras estilizadas.

(justifico)

Realmente, alguns guardanapos exigem mais tempo para serem compreendidos. Mas essa foi a forma que encontrei para que você participasse da minha arte. As coisas já andam tão dinâmicas no mundo de hoje. Ninguém mais quer perder muito tempo olhando para a mesma coisa sem parar. Essas letras confusas pedem a sua atenção. Querem que seus olhos as contemplem por alguns segundos a mais. Olha que derrota bonita: você perde tempo para ganhar poesia! O tempo que você passa tentando adivinhar faz você pensar em outra palavra, em outra frase, em outro verso. Este é o papel dessa fonte: você deixa de ser unicamente leitor e passa a ser também um participante criativo.

Aliás, esse foi o motivo pelo qual optamos (eu e a equipe editorial) por colocar um sumário com todas as frases digitadas somente no final do livro. Muitos me perguntaram por que eu não coloquei a legenda embaixo de cada página. Justamente para não matar a brincadeira, a adivinhação, o raciocínio de quem quer tentar revelar o que está escrito ali. Outro dia, uma senhora me mandou uma mensagem pelo Facebook dizendo que adorava as letras mais desenhadas, mais difíceis de entender, porque, segundo ela, obrigava o cérebro a raciocinar, a treinar, a praticar a memória. Para ela é um exercício poético. Já a minha avó acha que minhas letras se parecem com um arabesco. Eu concordo com ela. Talvez o meu inconsciente esteja mesmo voltado à minha infância no Chade, um país de língua árabe. Tirando o peso religioso e cultural, os muçulmanos veem essas formas em conjunto como um padrão infinito que se estende além do mundo material. É um padrão artístico que brinca com o infinito. E o que é a poesia senão essa possibilidade de brincar com o infinito?

Sem dúvida, os guardanapos com frases mais difíceis de ler à primeira vista são os menos curtidos e compartilhados, mas eu nunca escrevi um guardanapo pensando nisso. Aliás, continuarei seguindo o que eu disse na página 15 do meu livro: invista nos amores à primeira vista. Continuarei assim. Nesse meu amor pelas palavras embaralhadas, confusas, quase bêbadas, que parecem buscar a sobriedade nos olhos de quem está disposto a esperar o tempo que for para entendê-las.

Eu escrevo para brincar com o infinito.

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13/08/2015

O menino-girafa

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A memória é um ímã que coloca em contato passado e presente. Assim que se mudaram para a África, meus pais resolveram que cada filho adotaria um animal característico da região. Não animais reais, claro, mas miniaturas, pequenas esculturas, fotografias artísticas ou qualquer outra representação bonita. Acho que eles queriam que, de alguma forma, a nossa infância nunca escapasse da nossa história e fosse sempre lembrada de um jeito criativo: uma fórmula mágica para matar a saudade e continuar vivendo. Desde então, minhas três irmãs e eu, no meio das incontáveis mudanças de ruas, casas, bairros, cidades, países e continentes, sempre nos mantivemos vizinhos às nossas raízes.

Meus pais acertaram na mosca!

Sarah ficou com os elefantes e até hoje preserva em si uma doçura proporcional à grandeza deles, além de uma memória invejável. Maïra escolheu os hipopótamos e, sem dúvida, é a que tem os hábitos alimentares mais saudáveis da família. Se ela pudesse, só comeria folhas. Inclusive é capaz de ficar submersa por horas e horas e aparecer do nada para mostrar toda sua força. Nara abraçou os camelos, e a sua corcova imaginária funciona como um reservatório para guardar toda a sua bondade. A mim me foi dada a girafa, e até hoje sinto que trafego pelo mundo com a cabeça grudada nas nuvens e as patas fincadas no chão. Sempre achei que girafas fossem poetas gigantes que observam o mundo, manchadas pela tinta de suas canetas.

Em tom de brincadeira, a cada nova sarda que aparece no meu corpo digo que estou me transformando em algum super-herói africano: o menino-girafa, talvez. Meu superpoder? Transformar girafa em infância. Acredito que com as minhas irmãs aconteça o mesmo fenômeno. No meu caso, toda vez que vejo algo relacionado às girafas, minha memória me leva automaticamente para a segunda-feira, 22 de maio de 1989, no escritório do meu pai em N’Djamena, Chade. Estou sentado na cadeira mais alta daquela sala, desenhando a minha primeira girafa. Meus pés não alcançam o chão. Balanço as pernas no vazio debaixo da mesa, como se estivesse nadando ou tentando não me afogar. Imagino um rio agitado cheio de jacarés, peixes gigantes e monstros jamais vistos engolindo minha arte… Grito! Meu pai me abraça. Estou em paz novamente. Podemos voltar para casa?

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